
Brasil
31 voyages
No coração da Amazônia brasileira, onde o rio se alarga para se assemelhar a um mar interior, a cidade insular de Parintins se encontra entre Manaus e Santarém — uma modesta cidade de aproximadamente 115.000 habitantes que anualmente se transforma no cenário de um dos festivais folclóricos mais espetaculares do mundo. O Festival Folclórico de Parintins, realizado durante três noites no final de junho, é uma competição de tal ambição artística, profundidade cultural e intensidade emocional que foi comparada ao Carnaval do Rio — embora os participantes insistam, com justificável orgulho, que seu festival possui uma autenticidade e complexidade narrativa que o espetáculo comercializado do Rio não consegue igualar.
O festival gira em torno da lenda do Boi-Bumbá — um conto popular de origens africanas, indígenas e europeias que envolve a morte e ressurreição de um touro premiado. Dois grupos rivais — Caprichoso (representado por um touro azul) e Garantido (representado por um touro vermelho) — competem ao longo de três noites no Bumbódromo, uma arena construída especialmente para acomodar 35.000 espectadores. Cada grupo apresenta performances elaboradas que combinam dança, música, narrativa teatral e enormes cenários móveis — alguns com três andares de altura — que retratam lendas amazônicas, mitologia indígena e temas ambientais com uma arte estonteante. A própria cidade se divide ao longo das linhas das equipes; bairros inteiros pintam suas casas de azul ou vermelho em uma declaração apaixonada de lealdade.
Fora da temporada de festivais, Parintins oferece uma janela para a autêntica vida ribeirinha amazônica. A orla da cidade, ladeada por casas flutuantes e terminais de ferry, pulsa com o comércio do rio — barcos carregados de açaí, castanhas-do-pará, peixes secos e produtos da floresta chegam e partem em um ciclo contínuo que tem definido as comunidades ribeirinhas por séculos. O mercado matinal transborda com produtos amazônicos: frutas exóticas como cupuaçu e bacuri, peixes de água doce, incluindo o enorme pirarucu (um dos maiores peixes de água doce do mundo), e farinha de mandioca em dezenas de variedades.
A paisagem ribeirinha circundante oferece oportunidades para a observação da vida selvagem. Excursões de barco em pequenos barcos penetram na várzea (floresta sazonalmente alagada), onde os golfinhos de rio cor-de-rosa emergem com uma inteligência desconcertante em seus olhos, preguiças permanecem imóveis nas árvores de cecropia, e o hoatzin — uma estranha ave crestada que exala o cheiro de esterco e cujos filhotes possuem garras nas asas — atravessa a vegetação ribeirinha. A observação de jacarés após o anoitecer, quando uma lanterna captura o brilho vermelho dos olhos reptilianos ao longo da margem do rio, acrescenta uma aventura noturna.
Os navios de cruzeiro fluviais e as embarcações de expedição atracam na orla de Parintins, onde o centro da cidade é imediatamente acessível a pé. Os níveis das águas do Amazonas flutuam dramaticamente entre as estações seca e chuvosa, afetando o acesso aos cais e as opções de excursão. A estação seca, de agosto a novembro, oferece níveis de água mais baixos e uma melhor concentração de vida selvagem, enquanto a estação chuvosa (fevereiro a maio) inunda a floresta e permite a penetração de canoas profundamente na selva. O festival (final de junho) exige um planejamento antecipado, pois a acomodação se esgota meses antes, mas assistir à competição do Boi-Bumbá é uma experiência cultural única na vida que justifica todos os esforços.
