
Itália
Marghera,(Venice) Italy
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Marghera — ou, mais precisamente, o complexo do terminal de cruzeiros de Veneza que serve tanto Marghera quanto seu ilustre vizinho — ocupa o continente industrial em frente à cidade lagunar, proporcionando aos passageiros de cruzeiro sua primeira ou última visão de La Serenissima a partir de uma perspectiva que os doges medievais jamais poderiam ter imaginado. A relação entre a Marghera industrial e a histórica Veneza é uma das grandes justaposições da viagem moderna: de um lado, as plantas petroquímicas e os terminais de contêineres de um porto operante do século XX; do outro, o campanário de San Marco, as cúpulas da Basílica e o Grande Canal, ladeado por palácios, que constituem a mais improvável e bela conquista urbana da história humana.
Veneza não precisa de introdução — é a cidade contra a qual todas as outras localidades à beira-mar do mundo são medidas e consideradas inferiores. Mas aproximar-se de Veneza pelo mar, como gerações de comerciantes, peregrinos, cruzados e viajantes fizeram desde o século V, proporciona uma experiência fundamentalmente diferente de chegar de trem ou carro pela ponte. O navio navega pelos canais marcados da lagoa, passando pelas ilhas barreira de Lido e Murano, e Veneza se materializa das águas como uma visão — as fachadas em tons pastel, a floresta de campanários, o anjo dourado no topo do Campanile captando a luz. É uma vista que Turner pintou, Byron celebrou, e que continua a gerar emoções genuínas até mesmo no viajante mais cínico.
O patrimônio culinário de Veneza é o marisco adriático elevado pela riqueza do comércio de especiarias e pela sofisticação cosmopolita ao longo dos séculos. Sarde in saor (sardinhas marinadas em cebola agridoce, pinhões e passas) reflete o conhecimento dos mercadores venezianos sobre técnicas de preservação do Oriente Médio. Risotto al nero di seppia (risoto escurecido com tinta de choco) é dramático e profundamente saboroso. Fegato alla veneziana (fígado de vitela com cebolas) é o prato clássico das trattorias. A tradição dos cicchetti — a resposta de Veneza às tapas, pequenos pratos consumidos em pé nos balcões dos bacari — proporciona a experiência gastronômica mais democrática e deliciosa da cidade: polpette (almôndegas), baccalà mantecato (bacalhau batido) e crostini cobertos com todas as combinações imagináveis de frutos do mar, queijo e carnes curadas, acompanhados de uma ombra (copo de vinho) ou um spritz.
As atrações de Veneza — a Basílica de São Marcos com seus mosaicos bizantinos, o Palácio dos Doges, as pinturas de Bellini e Titian na Galeria da Accademia, a Ponte de Rialto, os canais sinuosos navegados por gôndolas — são tão familiares que se tornaram clichês, mas ainda mantêm um poder inabalável de deslumbrar. Os prazeres menos conhecidos são igualmente gratificantes: o Gueto Judeu (o primeiro do mundo, estabelecido em 1516, e a origem da palavra "gueto"), a ilha de Torcello com sua catedral do século VII, as oficinas de vidro de Murano e as casas coloridas de Burano. A Coleção Peggy Guggenheim, instalada no palácio inacabado da herdeira americana no Grande Canal, oferece um contraponto perfeito do século XX aos tesouros medievais e renascentistas encontrados em outras partes da cidade.
Os navios de cruzeiro que chegam ou partem de Veneza utilizam terminais em Marghera (no continente) ou na Stazione Marittima (mais próxima do centro histórico), dependendo do tamanho da embarcação e das regulamentações atuais sobre grandes navios na lagoa. Veneza também é servida pelo Aeroporto Marco Polo (a quinze minutos dos terminais do continente) e pela estação ferroviária Santa Lucia. A cidade é um destino durante todo o ano, embora as temporadas intermediárias de abril a maio e de setembro a outubro ofereçam a melhor combinação de clima agradável, multidões gerenciáveis e a luz radiante do Adriático que faz Veneza brilhar. A acqua alta (alta-mar) ocorre principalmente de outubro a janeiro, mas raramente interrompe uma visita por mais de algumas horas. Veneza é cara, cheia de gente e está lentamente afundando — e vale cada centavo, cada cotovelo e cada centímetro de sua magnífica e impossível existência.
