Madagascar
Ile Aux nattes
Île aux Nattes — conhecida em malaio como Nosy Nato — flutua logo ao largo da ponta sul da Île Sainte-Marie como uma joia que caiu do bolso de um pirata. E os piratas são precisamente o ponto: Île Sainte-Marie (Nosy Boraha) foi um dos mais notórios refúgios de piratas do Oceano Índico no final do século XVII e início do século XVIII, lar de figuras lendárias como o Capitão Kidd, Thomas Tew e a sombria comuna Libertalia. Île aux Nattes, com apenas dois quilômetros de extensão, servia como ancoradouro e local de desmantelamento onde os navios eram encalhados e limpos de percebes. Hoje, os piratas se foram há muito, mas seu legado persiste no cemitério de Sainte-Marie e na romântica anarquia de uma ilha que ainda não possui carros, nem estradas pavimentadas, e uma atitude em relação à marcação do tempo que faria qualquer bucaneiro de respeito sorrir.
Chegar à Île aux Nattes requer um mergulho em um canal raso na maré baixa ou a utilização de uma pirogue — uma canoa de madeira esculpida — na maré alta, e esse pequeno ato de desconexão do mundo moderno estabelece o tom para tudo o que se segue. A ilha é uma fantasia de Robinson Crusoé renderizada em cores tropicais: palmeiras de coco inclinam-se sobre praias de areia branca como pó, orquídeas de baunilha sobem os troncos das árvores de ylang-ylang, e o recife circundante cria uma piscina natural de água morna e turquesa. Não há resorts, não há concreto — apenas um punhado de bangalôs familiares construídos com palmeira de viajante e ravenala, a árvore em forma de leque que é o emblema nacional de Madagascar, onde o ritmo diário é ditado pelas marés e pela disponibilidade da pesca da manhã.
A vida marinha que circunda a Île aux Nattes é notavelmente rica para uma ilha tão pequena. O recife está repleto de peixes-borboleta, peixes-anjo e as estrelas-do-mar azul-elétrico que se tornaram o mascote não oficial da ilha. Entre julho e setembro, as baleias-jubarte migram das áreas de alimentação antárticas para essas águas quentes para dar à luz e amamentar seus filhotes, e a visão de uma mãe baleia saltando no canal entre as ilhas — um salto de 40 toneladas que faz a água espirrar em cascata — é um dos grandes espetáculos da vida selvagem do Oceano Índico. Tartarugas marinhas fazem seus ninhos nas praias mais tranquilas do leste, e mergulhadores sortudos ocasionalmente encontram tubarões-baleia deslizando pela borda do recife.
As tradições culinárias de Madagascar, entre as mais distintas da África, são belamente representadas na Île aux Nattes, apesar de seu tamanho diminuto. O arroz — vary em malaio — é a base de cada refeição, servido com laoka (acompanhamentos) que podem incluir romazava (um ensopado aromático de carne de zebu, verduras e gengibre), lagosta grelhada comprada diretamente dos pescadores ao amanhecer, ou ravitoto (folhas de mandioca socadas com leite de coco e carne de porco). A baunilha cultivada nessas ilhas é, sem dúvida, a mais fina do mundo — a baunilha Bourbon da costa nordeste de Madagascar exige prêmios internacionais — e aparece em tudo, desde o café da manhã até o flan de coco que serve como a sobremesa não oficial da ilha. O rum infundido com baunilha, lichia ou mel silvestre, conhecido como rhum arrangé, acompanha o ritual do pôr do sol em cada terraço de bangalô.
A Île aux Nattes é acessada por meio de botes ou Zodiacs a partir dos navios de cruzeiro ancorados ao largo da Île Sainte-Marie, com os passageiros desembarcando diretamente na praia. O melhor período para visitar é de julho a outubro, que coincide com a estação seca e a migração das baleias jubarte. A estação chuvosa, de janeiro a março, traz riscos de ciclones e chuvas intensas que podem tornar os caminhos de terra da ilha intransitáveis. Este é um destino para aqueles que medem o luxo não pela contagem de fios, mas pela ausência de despertadores — um lugar onde a decisão mais exigente do dia é escolher entre mergulhar com snorkel antes ou depois do flan de coco.